Atividades Para Crianças com Dislexia: 10 Exercícios Que Ajudam em Casa

⚠️ Aviso importante: Este conteúdo tem caráter exclusivamente pedagógico e informativo. Não substitui avaliação médica, diagnóstico ou tratamento clínico. Em caso de dúvidas, consulte sempre um profissional especializado de saúde ou psicólogo infantil.

Atividades para crianças com dislexia em casa é um tema que afeta milhares de famílias brasileiras.

Criar Atividades para crianças com dislexia que sejam divertidas e eficazes é o sonho de toda família.

Atividades Para Crianças com Dislexia: 10 Exercícios Que Ajudam em Casa

Exercícios divertidos em casa complementam o trabalho do profissional e fortalecem o vínculo

Se você chegou até aqui, provavelmente já passou por noites em claro, pesquisou dezenas de termos na internet e sentiu aquele aperto no peito ao ver seu filho ou filha lutando com algo que, para outras crianças, parece tão natural: a leitura. Nós entendemos esse sentimento — e queremos que você saiba que não está sozinha nessa jornada.

Na prática, como neuropsicopedagoga, atendo famílias todos os dias que vivem exatamente o que você está vivendo. Mães que choram no espaço de atendimento, pais que se sentem impotentes, e crianças incríveis que apenas precisam de caminhos diferentes para aprender. A dislexia não é uma sentença — é uma forma diferente de processar a linguagem, e com as estratégias certas, seu filho pode não apenas aprender a ler, mas descobrir que é capaz de coisas extraordinárias.

Neste artigo, nós reunimos 10 atividades práticas que você pode fazer em casa, sem precisar de materiais caros ou formação especializada. São exercícios baseados em evidências científicas, recomendados por especialistas em neuropsicopedagogia, e que transformam o aprendizado em algo leve e prazeroso. Vamos juntas?

O Que É Dislexia e Por Que Atividades em Casa São Tão Importantes

Antes de mergulharmos nas atividades, é fundamental entendermos o que estamos enfrentando. Segundo os critérios reconhecidos, a dislexia é classificada como um Transtorno Específico de Aprendizagem com prejuízo na leitura. Isso significa que a criança apresenta dificuldades persistentes na decodificação de palavras, na fluência de leitura e/ou na compreensão leitora, apesar de ter inteligência adequada e acesso à instrução formal.

A pesquisadora Sally Shaywitz, da Universidade de Yale, uma das maiores referências mundiais em dislexia, demonstrou em seus estudos com neuroimagem que o cérebro disléxico processa a linguagem por rotas neurais diferentes. Não é uma questão de preguiça, falta de esforço ou baixa inteligência — é neurobiologia.

E é justamente por isso que as atividades em casa são tão poderosas. A capacidade do cérebro de se adaptar — a capacidade do cérebro de formar novas conexões — é especialmente ativa na infância. Quando nós oferecemos estímulos consistentes, lúdicos e multissensoriais, estamos literalmente ajudando o cérebro do seu filho a construir novos caminhos para a leitura. O ambiente doméstico, com sua segurança emocional e ausência da pressão escolar, é o cenário perfeito para esse trabalho.

1. Jogo de Palmas por Sílabas: Consciência Fonológica na Prática

Como funciona e por que é eficaz

a segmentação silábica é uma das habilidades mais fundamentais para a leitura, e crianças com dislexia frequentemente apresentam dificuldades nessa área. O jogo de palmas por sílabas transforma esse treino em uma brincadeira ritmada e divertida.

Faixa etária: 4 a 9 anos

Materiais necessários: Apenas as mãos e a voz! Opcionalmente, figuras de objetos ou animais.

Passo a passo da atividade

Sente-se com seu filho em um lugar confortável e comece com palavras simples. Diga “CA-SA” batendo uma palma para cada sílaba. Peça para a criança repetir. Gradualmente, aumente a complexidade: “BO-R-BO-LE-TA”, “PA-RA-LE-LE-PÍ-PE-DO”. Transforme em competição: quem consegue bater as palmas mais rápido sem errar?

Estudos publicados no Journal of Learning Disabilities demonstram que o treino sistemático de consciência fonológica — e a segmentação silábica é um componente central — melhora significativamente a decodificação leitora em crianças disléxicas. Estamos, literalmente, treinando o córtex auditivo a discriminar os sons que compõem as palavras.

Dica para manter leve: Use palavras engraçadas, nomes de personagens favoritos ou palavras inventadas. Quando a criança erra, ria junto. O erro é parte do processo, e o riso libera substância de recompensa do cérebro, que facilita a aprendizagem.

2. Traçado de Letras na Bandeja de Areia ou Sal: Integração Visomotora

A ciência por trás do toque

Além disso, a abordagem multissensorial é considerada padrão-ouro no tratamento da dislexia. O método Orton-Gillingham, desenvolvido nos anos 1930 e continuamente validado por pesquisas, baseia-se exatamente nesse princípio: quanto mais sentidos envolvemos na aprendizagem, mais rotas neurais ativamos.

Faixa etária: 3 a 8 anos

Materiais necessários: Uma bandeja rasa (pode ser uma assadeira), areia fina ou sal grosso, e cartões com letras para referência.

Como aplicar em casa

Espalhe uma camada de areia ou sal na bandeja. Mostre uma letra para a criança e peça que ela a trace com o dedo na areia. Enquanto traça, ela deve dizer o nome da letra e o som que ela faz. A textura granulada ativa receptores táteis que enviam informações adicionais ao cérebro, reforçando a memória da forma da letra.

Dessa forma, você pode evoluir para palavras curtas: “BOI”, “LUA”, “PÉ”. A criança escreve, lê em voz alta, apaga chacoalhando a bandeja e escreve novamente. É mágico ver como a repetição nesse formato não gera resistência — porque é sensorial, é gostoso.

A Dra. Maryanne Wolf, neurocientista e autora de “Proust and the Squid”, explica que a integração visomotora — a conexão entre o que os olhos veem, o que as mãos fazem e o que a boca fala — cria circuitos cerebrais mais robustos para a leitura. Nós estamos oferecendo ao cérebro múltiplas “entradas” para a mesma informação.

Dica para manter leve: Adicione purpurina à areia, use areia colorida, ou deixe a criança “decorar” a bandeja antes de começar. O importante é que ela associe a atividade a prazer, não a obrigação.

3. Jogos de Rimas: Fortalecendo a Consciência Fonêmica

Por que rimas são tão importantes para crianças disléxicas

A capacidade de identificar rimas está diretamente ligada à consciência fonêmica — a habilidade de perceber e manipular os menores sons da fala. Pesquisas da Dra. Usha Goswami, da Universidade de Cambridge, mostram que dificuldades em perceber rimas estão entre os primeiros indicadores de risco para dislexia.

Criança traçando letras com o dedo em bandeja de areia como atividade para dislexia — atividades para crianças dislexia
Traçar letras na areia trabalha a memória visual e tátil ao mesmo tempo

Faixa etária: 4 a 10 anos

Materiais necessários: Cartões com figuras, livros de poesia infantil (Vinícius de Moraes, Cecília Meireles), ou simplesmente a criatividade.

Variações para todos os níveis

para os mais novos, comece com identificação: “GATO rima com PATO ou com BOLA?” Mostre figuras para apoio visual. Para crianças mais velhas, brinquem de “corrente de rimas”: você diz “FLOR”, ela diz “AMOR”, você diz “DOR”, e assim por diante. Quem travar, paga uma prenda engraçada.

Além disso, outra variação poderosa é cantar músicas conhecidas e pausar antes da rima para que a criança complete. “Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar, vamos dar a meia volta, volta e meia vamos ____.” O cérebro da criança precisa antecipar o som, o que exercita exatamente as áreas deficitárias na dislexia.

Dica para manter leve: Invente rimas absurdas e engraçadas. “O elefante usou um turbante e virou um ambulante!” Quanto mais boba a rima, mais a criança vai querer participar. E lembre-se, você, mãe: o objetivo não é perfeição, é prática prazerosa.

4. Leitura Pareada: Audiobook + Livro Físico

A técnica que conecta ouvido e olho

Esta é uma das estratégias mais recomendadas por especialistas em dislexia no mundo todo, e nós a adoramos pela sua simplicidade e eficácia. O princípio é simples: a criança ouve a narração do audiobook enquanto acompanha o texto no livro físico com o dedo.

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Faixa etária: 6 a 12 anos

Materiais necessários: Um livro físico e sua versão em audiobook (plataformas como Audible, Tocalivros, ou vídeos do YouTube com leitura em voz alta de livros infantis).

Como implementar de forma eficaz

Escolha livros que estejam ligeiramente abaixo do nível de leitura esperado para a idade — o objetivo é fluência, não frustração. A criança senta confortavelmente, abre o livro e aperta o play. Enquanto a voz narra, ela acompanha palavra por palavra com o dedo.

O que acontece no cérebro é fascinante: a área de Wernicke (compreensão auditiva) e a área visual (reconhecimento das palavras escritas) são ativadas simultaneamente, criando pontes neurais entre som e símbolo. Com o tempo, a criança começa a antecipar as palavras, e eventualmente pode ler sozinha trechos que antes pareciam impossíveis.

Um estudo publicado na revista Scientific Studies of Reading mostrou que a leitura assistida melhora significativamente a fluência leitora e a compreensão em crianças com dificuldades de aprendizagem. A chave é a repetição: leiam o mesmo trecho várias vezes ao longo da semana.

Dica para manter leve: Deixe a criança escolher o livro. Se ela ama dinossauros, procure audiobooks sobre dinossauros. Se ela adora princesas guerreiras, vá de princesas guerreiras. O interesse genuíno é o combustível da aprendizagem.

5. Cartões de Famílias de Palavras: Decodificação Sistemática

Organizando o caos das letras

Para uma criança disléxica, as palavras podem parecer um emaranhado confuso de letras sem lógica. Os cartões de famílias de palavras trazem ordem a esse caos, mostrando que existe um sistema, um padrão previsível.

Faixa etária: 5 a 10 anos

Materiais necessários: Cartolina colorida, canetinhas, tesoura. Ou simplesmente papel e caneta.

Montando as famílias

Crie cartões com terminações comuns: -ÃO, -AR, -ER, -OSO, -INHA. Em outro conjunto, coloque inícios de palavras. A criança combina: M + ÃO = MÃO, P + ÃO = PÃO, CH + ÃO = CHÃO. Ela manipula fisicamente os cartões, formando e reformando palavras.

Essa atividade trabalha a habilidade de decodificação — a capacidade de traduzir letras em sons e combiná-los para formar palavras. Segundo o modelo de dupla rota de leitura proposto por Max Coltheart, leitores habilidosos usam tanto a rota fonológica (som por som) quanto a rota lexical (reconhecimento visual da palavra inteira). Crianças disléxicas geralmente têm a rota fonológica comprometida, e os cartões de famílias exercitam exatamente essa habilidade.

Quando a criança percebe que “se eu sei ler PÃO, eu também sei ler MÃO, CHÃO, NÃO”, acontece um clique. Ela entende que a leitura tem lógica, tem padrão, e isso é imensamente empoderador.

Dica para manter leve: Transforme em jogo de memória — espalhe os cartões virados para baixo e a criança precisa encontrar os pares que formam palavras reais. Comemore cada acerto com entusiasmo!

6. Soletração com Letras Magnéticas na Geladeira: Aprendizado Tátil

A geladeira como quadro de aprendizagem

Você, mãe, já tem esse recurso incrível na sua cozinha e talvez nem saiba do seu potencial terapêutico. As letras magnéticas na geladeira oferecem uma experiência tátil e visual que complementa perfeitamente o trabalho de alfabetização para crianças disléxicas.

Faixa etária: 4 a 9 anos

Materiais necessários: Conjunto de letras magnéticas (disponível em papelarias e lojas de brinquedos educativos), geladeira ou qualquer superfície magnética.

Atividades com as letras magnéticas

Comece com atividades simples: peça para a criança encontrar todas as letras do nome dela e coloque-as em ordem na geladeira. Depois, avance para palavras do cotidiano: LEITE, PÃO, ARROZ (aproveite que vocês estão na cozinha!). Uma variação poderosa é a “troca de letras”: forme GATO e peça para a criança trocar a primeira letra para formar RATO, depois PATO, depois MATO.

O toque nas letras ativa o córtex somatossensorial, adicionando mais uma camada de processamento à aprendizagem. A criança sente a forma da letra, vê a cor, ouve o som quando fala — é aprendizagem multissensorial acontecendo naturalmente, sem pressão, enquanto você prepara o jantar.

A pesquisa em neurociência educacional da Dra. Guinevere Eden, da Universidade Georgetown, tem demonstrado consistentemente que abordagens multissensoriais ativam regiões cerebrais que compensam as áreas tipicamente subativadas na dislexia, especialmente o giro angular e o giro fusiforme esquerdo.

Dica para manter leve: Deixe “recados” na geladeira com letras magnéticas para a criança decifrar pela manhã. “BOM DIA” ou “TE AMO” são ótimos começos. Ela vai correr para ler o que você deixou!

7. Ditado de Histórias: A Criança Conta, Você Escreve

Separando a criação da mecânica

Esta atividade é especialmente importante porque aborda um efeito colateral devastador da dislexia que pouco se discute: a perda da autoconfiança criativa. Muitas crianças disléxicas são extremamente criativas e imaginativas, mas a dificuldade com a escrita mecânica impede que essa criatividade se manifeste. O ditado de histórias liberta a criança dessa barreira.

Faixa etária: 5 a 12 anos

Materiais necessários: Caderno bonito (deixe a criança escolher), caneta colorida para você escrever, e um lugar aconchegante.

O processo mágico do ditado

Diga ao seu filho: “Hoje você vai me contar uma história e eu vou escrever tudo. Você é o autor, e eu sou a sua secretária.” Essa inversão de papéis é poderosa — a criança se sente no controle, valorizada, capaz. Deixe-a livre para criar: pode ser uma aventura no espaço, uma história sobre o cachorro da família, ou um relato do que aconteceu na escola.

Enquanto ela narra, escreva fielmente. Depois, leia a história de volta para ela, apontando cada palavra. Na próxima sessão, peça para ela “ler” a história que criou — como ela sabe o conteúdo, a leitura fica mais fluente, e isso gera uma sensação de competência que é reparadora.

O psicólogo Lev Vygotsky já nos ensinou sobre a Zona de Desenvolvimento Proximal — aquele espaço entre o que a criança faz sozinha e o que faz com ajuda. O ditado de histórias é uma aplicação perfeita desse conceito: com seu apoio, a criança produz textos que sozinha ainda não conseguiria, e essa experiência de sucesso a impulsiona para frente.

Dica para manter leve: Crie um “livro de histórias” encadernado com as criações dela. Quando ela tiver uma coleção, mostre para avós e tios. Ver os adultos lendo e apreciando suas histórias é um remédio potente para a autoestima.

8. Trava-Línguas e Jogos de Aliteração: Ginástica Para o Cérebro

Quando o erro vira diversão

Trava-línguas são uma ferramenta neuropsicopedagógica disfarçada de brincadeira. Eles exigem que o cérebro processe rapidamente sequências fonológicas complexas, exercitando exatamente as habilidades que são desafiadoras para crianças disléxicas — mas em um contexto onde errar é esperado e divertido.

Faixa etária: 5 a 12 anos

Materiais necessários: Lista de trava-línguas (nós preparamos algumas sugestões abaixo), boa disposição e muita risada.

Trava-línguas para começar

Comece com os clássicos: “O rato roeu a roupa do rei de Roma.” Diga devagar, depois um pouquinho mais rápido, e desafie a criança a tentar. Quando ela tropeçar, ria junto e tente você também — provavelmente vai tropeçar também, e isso normaliza o erro.

Avance para os mais complexos: “Pedro tem o peito preto, o peito de Pedro é preto. Quem disser que o peito de Pedro é preto, tem o peito mais preto que o peito de Pedro.” A aliteração (repetição de sons consonantais) força o sistema fonológico a trabalhar em alta velocidade.

Para jogos de aliteração mais livres, brinquem de criar frases onde todas as palavras começam com a mesma letra: “Beatriz brincava bonita balançando bolas brancas.” A criança precisa buscar mentalmente palavras que compartilham o som inicial, o que é um exercício direto de consciência fonêmica.

Pesquisas em fonoaudiologia publicadas na Revista CEFAC indicam que o treino com trava-línguas melhora a discriminação auditiva e a memória fonológica de trabalho — duas funções frequentemente comprometidas na dislexia.

Dica para manter leve: Grave vocês tentando os trava-línguas e assistam juntos depois. A risada é garantida, e vocês criam memórias afetivas positivas associadas ao aprendizado.

9. Leitura de Receitas na Cozinha: Aprendizado Funcional e Significativo

Quando a leitura tem propósito real

Uma das queixas mais comuns que ouço no espaço de atendimento é: “Meu filho não vê sentido em ler.” E, honestamente, para uma criança que luta com cada palavra, ler um texto escolar que não conecta com sua realidade pode mesmo parecer um exercício sem propósito. A cozinha muda isso completamente.

Faixa etária: 6 a 12 anos

Materiais necessários: Receitas simples impressas em letra grande, ingredientes, e disposição para um pouco de bagunça criativa.

Cozinhando e lendo ao mesmo tempo

Escolha receitas simples e com poucas etapas: brigadeiro, bolo de caneca no micro-ondas, sanduíche decorado. Imprima a receita em fonte grande (no mínimo tamanho 16, preferencialmente uma fonte sem serifa como Arial ou Verdana — pesquisas indicam que fontes sem serifa são mais legíveis para disléxicos).

A criança lê cada passo e executa. “Coloque 2 colheres de chocolate em pó.” Ela precisa ler, compreender, medir e agir. A leitura ganha função real, imediata e recompensadora — no final, tem brigadeiro!

Esse tipo de atividade trabalha a compreensão leitora em contexto funcional, que é diferente da compreensão leitora acadêmica. A criança aprende que ler serve para fazer coisas no mundo real, e essa motivação intrínseca é mais poderosa do que qualquer recompensa externa.

O neurocientista Stanislas Dehaene, autor de “Os Neurônios da Leitura”, explica que a leitura significativa — aquela conectada a um objetivo real — ativa circuitos de recompensa no cérebro (sistema dopaminérgico), o que facilita a consolidação da aprendizagem na memória de longo prazo.

Dica para manter leve: Deixe a criança escolher o que quer cozinhar. Se fizer bagunça, respire fundo. A receita suja de farinha é uma receita que foi lida, compreendida e executada — isso é uma vitória enorme.

10. Criação de Histórias em Quadrinhos: Desenho + Palavras Simples

A porta de entrada visual para a escrita

Nós guardamos esta atividade para o final porque ela é, na nossa experiência, a mais transformadora. Histórias em quadrinhos combinam imagem e texto de uma forma que é naturalmente acessível para crianças disléxicas — o desenho fornece contexto visual que apoia a leitura, e os balões de fala pedem textos curtos e diretos.

Faixa etária: 6 a 12 anos

Materiais necessários: Papel sulfite, lápis, borracha, canetinhas coloridas. Opcionalmente, modelos de quadrinhos em branco impressos da internet.

Criando o primeiro gibi

Comece desenhando juntos uma grade simples: 4 a 6 quadros em uma folha. Peça para a criança pensar em uma história curta — pode ter só 3 personagens e um acontecimento simples. Ela desenha as cenas (sem pressão artística — bonecos de palitinho são perfeitos!) e depois escreve os diálogos nos balões.

A beleza desta atividade é que os balões de fala limitam naturalmente a quantidade de texto, reduzindo a sobrecarga. A criança escreve “SOCORRO!” ou “QUE LEGAL!” — frases curtas, com propósito narrativo. E o desenho ao redor dá suporte semântico: se ela escreveu algo que não ficou totalmente legível, o contexto visual ajuda o leitor (e ela mesma) a compreender.

Pesquisas em literacia visual publicadas no Journal of Visual Literacy mostram que a combinação de texto e imagem melhora a compreensão e a retenção em leitores com dificuldades. Além disso, o processo criativo de inventar personagens e situações exercita funções executivas como planejamento, sequenciação e organização — habilidades que frequentemente precisam de reforço em crianças com dislexia.

Dica para manter leve: Você, pai, você, mãe — criem quadrinhos também! Mostrem que erram, que rabiscam, que recomeçam. A criança precisa ver que o processo criativo é assim mesmo: imperfeito, bagunçado e absolutamente maravilhoso.

Como Organizar uma Rotina de Atividades Sem Sobrecarregar a Criança

Agora que você conhece as 10 atividades, é natural querer começar todas ao mesmo tempo. Nós entendemos a urgência — quando amamos alguém, queremos resolver tudo rápido. Mas a neurociência nos ensina que menos é mais quando se trata de crianças com dislexia.

Sugestão de organização semanal

Escolha 2 a 3 atividades por semana, com sessões de 15 a 20 minutos cada. Mais do que isso pode gerar fadiga e resistência. Alterne entre atividades mais “acadêmicas” (como os cartões de famílias de palavras) e mais lúdicas (como os trava-línguas ou a cozinha). Observe qual atividade seu filho mais gosta e priorize — o engajamento é mais importante do que a variedade.

E, por favor, não transforme essas atividades em “dever de casa extra”. O momento deve ser de conexão entre vocês, de risadas, de cumplicidade. Se a criança resistir em um dia, não force. Diga: “Tudo bem, hoje a gente só brinca de outra coisa. Amanhã a gente tenta.” A relação de vocês é mais importante do que qualquer exercício fonológico.

Quando Procurar Ajuda Profissional

As atividades que compartilhamos são complementares, não substitutas, ao acompanhamento profissional. Se você suspeita que seu filho tem dislexia, o primeiro passo é buscar uma avaliação neuropsicopedagógica completa. O diagnóstico formal é importante não apenas para direcionar a intervenção, mas também para garantir os direitos da criança na escola — como tempo adicional em provas e adaptações curriculares previstas em lei.

Procure profissionais com experiência em transtornos de aprendizagem: neuropsicopedagogos, psicopedagogos, profissional de linguagem e aprendizagems especializados em linguagem escrita, e neuropsicólogos. O trabalho em equipe multidisciplinar é o que traz os melhores resultados.

Criança com dislexia lendo receita em letra grande enquanto cozinha com a mãe
Ler uma receita na cozinha é leitura funcional — e a criança nem percebe que está praticando

📚 ABD — Associação Brasileira de Dislexia

Uma Mensagem Final de Coração

Você, mãe, você, pai — nós sabemos que o caminho da dislexia pode parecer longo e, em alguns momentos, solitário. Mas queremos que você olhe para o seu filho e veja o que nós vemos no espaço de atendimento todos os dias: uma criança corajosa, que enfrenta desafios que a maioria dos adultos nem imagina, e que continua tentando.

As 10 atividades que compartilhamos neste artigo são ferramentas poderosas, mas a ferramenta mais poderosa de todas é o amor de vocês. Cada vez que você senta ao lado do seu filho para brincar de rimas, para fazer brigadeiro lendo a receita, para criar um gibi juntos, você está dizendo com ações o que as palavras às vezes não conseguem expressar: “Eu acredito em você. Eu estou aqui. Nós vamos juntos.”

E isso, queridos pais, faz toda a diferença no mundo.

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Jessica Lisboa
Sobre a autora Jessica Lisboa

Jessica Lisboa é neuropsicopedagoga, pedagoga e mãe de gêmeos. Com mais de 10 anos dedicados à aprendizagem infantil, já acompanhou de perto o desafio de centenas de famílias que não entendiam por que seus filhos inteligentes não conseguiam aprender como os outros. Especialista em TDAH, TOD, Dislexia e TEA, escreve para transformar conhecimento técnico em orientação real para quem está nas trincheiras do dia a dia — a família.

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